Ele passou a vida procurando alguém.
Não sabia exatamente quem.
Sabia apenas que, quando encontrasse, alguma coisa dentro dele finalmente ficaria em silêncio.
Que os longos e vazios dias que se arrastavam do nascer ao pôr do sol, seguidos pelos anos que se esvaiam em solidão.
Na juventude, confundiu desejo com amor. Achava que bastava encontrar um corpo que coubesse no seu abraço para que o vazio desaparecesse. Por certo não desapareceu.
Vieram outras mulheres.
Outras noites.
Outros quartos.
Outros começos que pareciam prometer aquilo que nenhum deles conseguia entregar.
Então ele aprendeu a partir antes que percebessem que, por trás de sua segurança, havia um homem ainda assustado com o mundo.
Dizia que não acreditava em eternidade.
Possivelmente apenas medo de admitir que gostaria de acreditar.
Os anos passaram assim, como num piscar de olhos.
Longas estradas. Longos dias. Anos não tão longos assim.
De um nascer do sol ao outro, ele trabalhava, viajava, bebia algumas vezes mais do que deveria e encontrava companhia suficiente para não precisar encarar a própria solidão.
Mas o destino do dia é culminar na noite. E havia sempre a noite.
Aquela que não tinha piedade. Que cobrava o preço de seu silêncio.
Quando as luzes se apagavam e o barulho do mundo diminuía, ele escutava dentro de si aquilo que passara o dia inteiro tentando calar. Já não era mais um ruído de fundo
.Era uma tempestade, uma espécie de fome.
Não era fome de sexo.
Não era fome de dinheiro.
Não era sequer fome de companhia.
Era fome de compreensão e autoaceitação.
De olhar para alguém e não precisar representar personagem algum.
De poder permanecer.
De não precisar ir embora.
Mas ele nunca soube pedir isso.
Então continuou procurando.
E cada encontro que começava com esperança terminava deixando um pouco mais de vazio. E uma pedra a mais em sua mochila para carregar.
Ele dizia a si mesmo que estava vivendo. Ainda que o peso só aumentava.
Talvez estivesse mesmo vivendo.
Só que existe uma diferença entre viver e apenas preencher o tempo.
Ele só percebeu isso muitos anos depois.
Quando há muito não era jovem.
Quando o espelho começou a devolver um rosto que ele não reconhecia completamente.
Quando percebeu que algumas pessoas que haviam passado por sua vida já sequer se lembravam dele.
Outras haviam morrido.
Algumas simplesmente seguiram seu próprio caminho.
E então ele se perguntou quantas vezes alguém havia tentado amá-lo enquanto ele estava ocupado demais procurando respostas para perguntas que sequer sabia formular.
A pergunta doeu.
Certas respostas chegam tarde demais para serem úteis.
Sentou-se sozinho diante de uma janela.
Sobre a mesa havia uma velha ampulheta empoeirada.
Ele a virou.
A areia começou a cair.
A gravidade é implacável.
Ficou olhando.
Grão após grão.
Sem pressa.
Sem piedade.
E, pela primeira vez, algo lhe fez compreender.
A vida inteira ele havia pensado que o tempo era aquilo que passava enquanto esperava encontrar alguém.
Não era.
O tempo era aquilo que estava passando enquanto ele esperava começar a viver.
Assim como Kronos devorava seus próprios filhos, a implacabilidade do tempo consome silenciosamente cada juventude, transformando impérios em memórias e poeira.
A areia continuava descendo.
Ele pensou nas mulheres que havia abraçado sem realmente enxergar.
Nas mãos que segurara sem saber segurar alguém.
Nos corpos que procurara quando, na verdade, procurava abrigo.
Pensou nas palavras que não disse.
Nos pedidos de desculpa que nunca fez.
Em tudo o que quis e não demonstrou.
Nos amores que talvez tivessem sido possíveis, se ele tivesse estado realmente disposto a lutar.
Foi então que percebeu a crueldade.
Ele não havia perdido o amor.
Havia desperdiçado a capacidade de reconhecê-lo.
Durante anos, confundira intensidade com profundidade.
Desejo com intimidade.
Possessão com pertencimento.
E solidão com liberdade.
E esta última palavra quase o fez sorrir. O que mais lhe era caro sempre foi sua liberdade.
Passou a vida inteira orgulhoso de não depender emocionalmente de ninguém.
Só muito tarde descobriu que independência não significa incapacidade de amar.
E que ninguém é verdadeiramente livre quando precisa fugir de tudo aquilo que poderia fazê-lo sentir.
A areia continuava caindo.
Ele colocou a mão sobre a ampulheta.
Como numa tentativa desesperada de impedir o transcurso do tempo.
Não podia.
Nunca pôde, nem mesmo Kronos poderia.
Lembrou-se então de uma mulher que conhecera muitos anos antes.
Ela não havia sido a mais bonita.
Nem a mais intensa.
Mas fora a única que conseguira olhar para ele sem exigir que fosse outra pessoa.
Naquela época, ele achou aquilo pouco.
Hoje daria quase tudo para ter de volta aquele olhar.
Mas algumas coisas não voltam.
O tempo não devolve o que levou.
As marés cobrem as pegadas.
As noites engolem as vozes.
E a areia, indiferente, continua caindo.
Ele virou a ampulheta outra vez.
Dessa vez, não para tentar recuperar o tempo.
Apenas para assistir.
Talvez fosse isso que finalmente aprendera.
Que a vida não nos pergunta quanto amor recebemos.
Pergunta quanto conseguimos reconhecer enquanto ele esteve diante de nós.
Lá fora, o dia começava a desaparecer mais uma vez.
Dentro da casa, a luz diminuía lentamente.
Ele permaneceu sentado.
Sem procurar ninguém.
Sem fugir de ninguém.
Apenas olhando a areia cair.
E, pela primeira vez em muitos anos, não sentiu vontade de preencher o silêncio.
Porque finalmente havia entendido que algumas solidões não pedem companhia.
Pedem coragem.
E que eventualmente o maior desperdício de uma vida não seja passar algum tempo sozinho.
Seja passar a vida inteira correndo de si mesmo, enquanto o amor passa ao lado.
Sem fazer barulho.
Enquanto a areia cai.
FIM
Uma crônica de Márcio Rahal Costa, inspirada na canção Wasting Love, do Iron Maiden.