Às duas e dezessete da madrugada, Lucas ainda estava diante do computador.
Não tinha nada particularmente importante para terminar. O código em que estivera trabalhando estava praticamente pronto. Restavam alguns detalhes, pequenas correções que poderiam esperar até a manhã seguinte.
Mas Lucas tinha o hábito de continuar trabalhando mesmo quando já não havia necessidade.
O apartamento, como sempre, estava silencioso e metodicamente organizado.
O único som constante vinha da geladeira, na cozinha, produzindo aquele ruído baixo e irregular que, depois de algum tempo, deixava de ser percebido.
Na tela, linhas de código ocupavam quase todo um dos monitores.
Lucas recostou-se na cadeira e esfregou os olhos.
Foi quando percebeu a mariposa.
Ela entrou pela janela aberta do banheiro e começou a voar de maneira desordenada, batendo de leve contra a parede.
Lucas acompanhou o inseto por alguns segundos.
Então percebeu a lagartixa.
Pequena, quase da mesma cor da parede, ela permanecia imóvel próximo ao batente.
A cabeça acompanhava a mariposa com os olhos esbugalhados de uma lagartixa.
Esquerda.
Direita.
Esquerda.
Lucas sorriu.
A lagartixa parecia estar calculando.
Esperou.
Mais um pouco.
A mariposa aproximou-se.
A lagartixa contraiu o corpo.
Lucas desviou os olhos por um instante para o monitor.
Talvez dois segundos.
Quando voltou a olhar para o banheiro, a mariposa estava entrando pela janela.
Novamente.
Lucas ficou imóvel.
A lagartixa acompanhava seus movimentos.
Esquerda.
Direita.
Esquerda.
A mesma trajetória.
O mesmo movimento das asas.
A mesma pequena pausa.
Lucas olhou para o relógio do computador.
02:18.
Voltou a olhar para o banheiro.
A lagartixa avançou.
A mariposa tentou escapar.
O bote aconteceu.
Lucas esperou.
Nada.
A lagartixa estava com a mariposa na boca.
Ele voltou ao computador.
Por alguns segundos, ficou olhando para o código sem ler uma única linha.
Então olhou novamente para o banheiro.
A mariposa estava viva.
Entrando pela janela.
Lucas levantou-se.
Foi até lá.
A lagartixa continuava no mesmo lugar.
A mariposa continuava voando.
Ele não disse nada.
Aproximou-se da parede.
Procurou algum sinal de que havia perdido a sequência. Pode ser que tivesse se distraído. Ou que a mariposa tivesse saído por outra janela. Talvez houvesse outra mariposa.
Não havia.
Uma única janela.
Uma única mariposa.
Uma única lagartixa.
Lucas olhou para o relógio do pulso.
02:18.
Depois olhou para o relógio do computador.
02:18.
Foi até a cozinha.
O relógio do micro-ondas marcava 00:00, quem diabos programa relógios de microondas, pensou.
Aquilo não fazia sentido.
Ele ficou alguns segundos parado.
Então ouviu a geladeira.
Um ruído curto.
Grave.
Irregular.
E, aproximadamente dois segundos depois, ouviu exatamente o mesmo ruído.
Lucas franziu a testa.
Ficou esperando.
Nada.
Passaram-se alguns segundos.
Ele voltou ao computador.
Abriu um programa de gravação.
Começou a registrar tudo.
Não sabia exatamente o que estava procurando.
Talvez fosse isso que mais o incomodasse.
Lucas trabalhava com sistemas havia quase vinte anos.
Sabia que máquinas apresentavam erros, assim como processos travavam, dados podiam ser corrompidos.
Também sabia que uma sequência podia ser executada duas vezes.
Mas uma sequência da realidade?
Ele passou a mão pelo rosto.
Abriu o relógio do sistema.
02:19.
Olhou para o relógio de pulso.
02:19.
Voltou os olhos para o computador.
02:19.
E o maldito relógio do micro-ondas.
00:00
Então o ponteiro dos segundos do relógio de pulso recuou.
Apenas um pequeno movimento.
Quase imperceptível.
Lucas congelou.
O ponteiro avançou novamente.
Ele esperou.
Nada.
Olhou para a janela.
Nada.
Para a cozinha.
Nada.
Para o banheiro.
A lagartixa havia desaparecido.
Lucas ficou ali, de pé, sem saber exatamente o que fazer.
Então percebeu que estava prendendo a respiração.
Soltou o ar lentamente.
— Não.
Foi a única coisa que disse.
Voltou para o computador.
Abriu um editor de texto.
Começou a escrever.
02:19:43 — ponteiro do relógio recuou.
Parou.
Pensou.
Acrescentou:
Possível falha de percepção.
Ficou olhando para a frase.
Apagou a última linha.
Escreveu:
Não foi percepção.
Salvou o arquivo.
Naquele momento, ouviu novamente o ruído da geladeira.
Uma vez.
Depois outra.
Lucas olhou para o relógio.
Dessa vez, não desviou os olhos.
O ponteiro avançou.
Avançou.
Avançou.
Então voltou exatamente para onde estava um segundo antes.
Lucas não piscou.
O ponteiro avançou novamente.
Como se nada tivesse acontecido.
Ele ficou olhando para aquilo durante muito tempo.
Na manhã seguinte, pesquisou a história do prédio.
Descobriu que tinha sido construído vinte e três anos antes.
Tudo estava correto.
A documentação.
As plantas.
As fotografias da obra.
Até a reforma do banheiro.
Lucas abriu uma fotografia antiga encontrada no arquivo digital do condomínio.
Era uma imagem banal.
Operários trabalhando.
Paredes inacabadas.
Fios expostos.
Poeira.
Nada estranho.
Ele ampliou a fotografia.
Um dos homens segurava uma ferramenta.
Lucas aproximou a imagem.
Não conseguiu identificar qual era.
Fechou o arquivo.
Foi ao banheiro.
Sentou-se na borda da banheira.
Ficou olhando para o chão.
Não sabia por quê.
Então aconteceu.
Durante uma fração de segundo, o banheiro desapareceu.
No lugar dele havia homens.
Quatro.
Talvez cinco.
Operários.
Paredes abertas.
Tubulações.
Poeira suspensa no ar.
Um deles levantou o braço.
A ferramenta escorregou de sua mão.
Caiu.
Lucas viu exatamente onde tocou o chão.
Depois tudo voltou ao normal.
Ele permaneceu imóvel.
Olhou para o piso.
Havia uma pequena marca no revestimento.
Lucas aproximou o rosto.
Não lembrava daquela marca.
Mas tinha certeza de que estava ali havia anos.
Levantou-se.
Foi até a sala.
Abriu novamente as fotografias antigas.
Procurou a ferramenta.
Encontrou.
O mesmo formato.
A mesma posição.
No dia seguinte, voltou ao banheiro.
A marca continuava lá.
Nenhuma explicação.
Nenhuma resposta.
Apenas uma pequena marca no chão.
Lucas começou a anotar tudo.
Horários.
Durações.
Objetos.
Sons.
Pequenos acontecimentos.
Quanto mais anotava, mais percebia uma coisa.
Os eventos não se repetiam exatamente.
Havia sempre uma diferença.
Uma gota caía um pouco mais para a esquerda.
Um ruído durava alguns milissegundos a mais.
O ponteiro recuava uma distância ligeiramente diferente.
Era como se alguma coisa estivesse tentando repetir a realidade.
Mas nunca conseguisse reproduzi-la perfeitamente.
Na terceira noite, Lucas teve uma lembrança da infância.
Sua mãe chamando-o para jantar.
Ele conseguia sentir o cheiro da comida.
Lembrava da voz.
Da luz amarelada da cozinha.
Do som dos talheres.
Mas havia outra lembrança.
Na segunda, a mesma noite acontecia de maneira diferente.
A cozinha era a mesma.
A voz da mãe era a mesma.
O cheiro era o mesmo.
Mas alguma coisa mudava.
Lucas tentou descobrir qual.
Não conseguiu.
As duas lembranças tinham a mesma nitidez.
A mesma certeza.
A mesma sensação de realidade.
Então surgiu uma terceira.
Lucas abriu os olhos.
Ficou sentado na cama.
Não sabia de onde aquela lembrança tinha vindo.
Não era uma memória esquecida.
Era como se tivesse acabado de acontecer.
Naquela madrugada, ele abriu uma gaveta que quase nunca usava.
Encontrou uma velha lista de compras.
Virou o papel.
No verso havia uma frase.
Escrita com sua letra.
Lucas leu.
Depois leu novamente.
Quando você encontrar isto, não confie na primeira lembrança.
Ele reconhecia aquela caligrafia.
Era sua.
Não havia dúvida.
Mas não lembrava de ter escrito aquilo.
Sentou-se no chão.
Por alguns minutos, não fez absolutamente nada.
Depois percebeu que tudo estava normal.
O relógio funcionava.
A geladeira funcionava.
O computador funcionava.
Nada se repetia.
Nada desaparecia.
Nada voltava.
Lucas esperou.
Uma hora.
Duas.
Nada.
Então percebeu uma coisa.
Os fenômenos não tinham terminado.
Eles apenas aconteciam quando ele não estava olhando.
Um ruído atrás dele.
Quando se virava, silêncio.
Uma sombra no canto do olho.
Nada.
Uma alteração mínima em algum objeto.
Normal novamente quando voltava a atenção.
Era como se houvesse uma regra.
Uma regra que ele não conhecia.
E que, de alguma maneira, conhecia ele.
Na manhã seguinte, Lucas ficou diante da janela.
Um carro passou lentamente pela rua.
Ele acompanhou o veículo.
Por um instante, tudo pareceu normal.
Então olhou para baixo.
Quando voltou os olhos para a rua, o carro já estava alguns metros adiante.
O motorista olhava diretamente para ele.
Lucas não se mexeu.
O homem também não.
Não havia curiosidade naquele olhar.
Nem surpresa.
Apenas atenção.
O carro continuou.
Desapareceu na esquina.
Lucas fechou a cortina.
Ficou alguns segundos parado.
Atrás dele, ouviu um pequeno ruído.
Virou-se.
A lagartixa estava novamente na parede do banheiro.
A mariposa entrou pela janela.
A lagartixa acompanhou seus movimentos.
Esquerda.
Direita.
Esquerda.
Esperou.
Preparou o corpo.
Lucas ficou olhando.
Dessa vez, não desviou os olhos.
O bote aconteceu.
E, por uma fração de segundo, Lucas teve a impressão de que o mundo inteiro havia piscado junto com ele.
Então tudo continuou.
Como se nada tivesse acontecido.
FIM