São quase três da manhã.
A Europa está dormindo, quer dizer, quase toda ela. Eu sigo firme e devidamente desperto, sozinho por uma estrada rumo ao norte da Alemanha.
A cabine do Volvo é uma pequena ilha iluminada no meio de um continente completamente escuro e que já começa a sentir os efeitos das primeiras brisas do outono que precedem o rigoroso inverno que se avizinha. Lá fora, só existem o asfalto, os refletores distantes e o negrume das montanhas recortando o horizonte.
O limpador de para-brisa vai e volta, como num loop infinito causado por uma fria e suave chuva que vagarosamente lava o vidro.
No rádio, começa um teclado, seguido de uma guitarra característica e então aquela voz:
“Mr. Crowley…”
Eu aumento o volume para o príncipe do rock, Ozzy Osbourne.
É como se, por alguns minutos, eu deixasse de dirigir pela Europa.
Viajo para outro lugar, uma época já distante, um outro tipo de escuridão.
Edward Alexander Crowley nasceu na Inglaterra, em 1875.
O mundo em que nasceu acreditava conhecer perfeitamente a diferença entre o bem e o mal.
Havia Deus, pecado, céu, inferno e havia regras, muitas regras.
Crowley passou a vida tentando descobrir o que aconteceria se um homem simplesmente decidisse não aceitar nenhuma delas.
Pode ser que esta tenha sido essa sua primeira rebelião, e talvez tenha sido também a última.
É muito fácil desafiar uma regra. O difícil é descobrir o que fazer quando todas as regras desaparecem.
Crowley abandonou a religião de sua família e mergulhou profundamente no ocultismo.
Estudou cabala, tarot, alquimia, simbolismo e magia ritual. Entrou para sociedades secretas. Viajou. Escalou montanhas. Escreveu livros.
Fez de sua vida uma eterna procura. Por vezes procurou alguma coisa sem saber exatamente o que procurava, talvez Deus, o diabo, a si mesmo, nunca saberemos.
Mas algo parece evidente: Crowley não queria simplesmente acreditar cegamente, ele queria experimentar, abrir a porta, olhar atrás da cortina, talvez rasgar o véu de Maya.
Em 1904, no Cairo, Crowley afirmou ter recebido uma revelação sobrenatural que daria origem ao Livro da Lei, texto fundamental da religião que desenvolveria posteriormente, Thelema.
Segundo seu próprio relato, uma entidade chamada Aiwass teria transmitido a mensagem. Crowley acreditou naquilo que dizia ter recebido, e com isso construiu em torno daquela experiência toda uma filosofia.
No centro estava uma frase que seria repetida milhares de vezes:
“Do what thou wilt.”, que nada mais é que faze o que tu queres.
Parece simples, talvez simples até demais.
Existe uma diferença monstruosa entre fazer aquilo que você quer e descobrir aquilo que realmente quer.
O primeiro é desejo. Vontade, no sentido mais bruto da palavra. Aquela força cega, irracional e incessante de que falava Schopenhauer, que parece mover não apenas o homem, mas o próprio mundo.
O segundo pretende ser destino, o velho trapaceiro que nos acompanha desde sempre.
Crowley chamou isso de Verdadeira Vontade.
E aqui a história fica interessante.
Todos nós gostamos da palavra liberdade.
Mas quase ninguém fala sobre o peso dela, e sobre o que realmente ela significa. Muito elemento de símbolos e teorias enlatadas.
É confortável ter alguém dizendo o que devemos fazer e a hora que devemos fazer.
É confortável receber uma moral pronta, acabada e para consumo instantâneo.
É confortável culpar Deus, o Estado, os pais, a sociedade, o chefe, a família, a época.
A liberdade verdadeira é mais assustadora.
Quando ninguém mais pode ser responsabilizado pela sua vida, sobra você.
E Crowley quis ir até esse lugar distante.
Pode ser que tenha ido longe demais.
Ele começou a construir uma persona, um personagem que o eternizaria:
The Great Beast 666.
A imprensa adorou, chamaram-no de perverso, monstro, satanista, perigoso.
A expressão “o homem mais perverso do mundo” passou a acompanhá-lo como uma tatuagem que tempo nenhum consegue remover.
E Crowley não pareceu interessado em destruir a lenda. Pelo contrário, ele resolver surfar a onda e passou a alimentar o monstro.
Esse é o ponto mais fascinante da história.
Em algum momento, o homem percebeu que havia criado um personagem, um mito.
Mas ocorreu que o personagem ficou grande demais.
É uma coisa perigosa, criar uma identidade, no começo, você veste a máscara, depois, passa a viver dentro dela, e, finalmente, descobre que não sabe mais onde termina a máscara e começa o rosto. O criador se torna escravo da própria criatura.
Crowley experimentou drogas, práticas sexuais consideradas escandalosas para seu tempo, rituais, viagens, conflitos, relações tumultuadas, alternou períodos de riqueza e pobreza.
E escreveu incessantemente.
Sua vida parecia uma tentativa permanente de empurrar os limites conhecidos rumo a um pântano lamacento e desconhecido.
Como se existisse uma fronteira invisível entre o homem civilizado e aquilo que existe quando a civilização é arrancada dele.
E Crowley queria atravessar. Estava disposto a entrar no pântano e descobrir o que existia na outra margem.
No rádio, Randy Rhoads toca.
A guitarra parece uma lâmina atravessando a escuridão.
O volume alto, a boa qualidade acústica do sistema de som e eu penso:
É isso que torna Crowley tão perturbador.
Não a magia, os rituais, a numerologia, mas a pergunta. A pergunta que existe por trás de tudo.
O que sobra de um homem quando ele decide que nenhuma autoridade externa tem o direito de dizer quem ele deve ser?
Crowley tentou responder.
E respondeu de maneira radical demais.
Mas a pergunta continua viva, uma vez que a civilização moderna fez exatamente o contrário.
Transformou o homem em consumidor, eleitor, trabalhador, usuário, numero, perfil, dado, no fim das contas, um escravo da matrix.
Criamos máquinas capazes de conhecer nossos desejos antes mesmo que nós os compreendamos.
E então aparece um sujeito de 1875 dizendo:
descubra a sua vontade, o que te move.
É quase irônico.
Crowley morreu em 1947 pobre e doente, em uma Sussex castigada pelo pós segunda guerra mundial. Esquecido por boa parte do mundo.
O homem que havia construído uma reputação quase sobrenatural terminou a vida longe do esplendor que imaginara.
Mas a história não terminou ali. Alguns homens morrem e outros se transformam em símbolos.
Crowley virou símbolo.
A contracultura encontrou seus livros.
O rock encontrou seu rosto.
E o século XX transformou o velho ocultista inglês em uma espécie de santo profano da rebeldia.
Décadas depois, Ozzy Osbourne colocou seu nome numa música.
Mr. Crowley apareceu em Blizzard of Ozz, o primeiro álbum solo de Ozzy, lançado em 1980.
E a pergunta que Ozzy fazia era simples:
O que diabos estava passando na cabeça daquele homem?
Nunca saberemos responder.
A música termina.
Fica apenas o motor.
O caminhão continua avançando.
A chuva diminuiu.
As luzes da estrada aparecem e desaparecem. Eu preciso parar e escrever sobre isso.
E penso que talvez Crowley tenha passado a vida inteira procurando o sobrenatural quando o verdadeiro mistério estava diante dele.
O próprio homem. Somos animais que sabem que vão morrer.
Somos criaturas capazes de imaginar o infinito enquanto vivem dentro de um corpo que apodrece.
Construímos religiões, Estados, impérios, algoritmos, bombas, poemas… e de vez em quando olhamos para o céu e perguntamos:
por quê?
Crowley respondeu à sua maneira.
Pode ser que tenha encontrado alguma coisa.
Talvez não.
Talvez Aiwass tenha sido uma entidade, ou uma experiência subjetiva do sistema.
Pode ser que tenha sido inspiração, ou um delírio.
A história pode registrar aquilo que Crowley disse.
Não pode registrar aquilo que realmente aconteceu dentro de sua cabeça. E nunca vai poder. Isso morreu com ele.
E esse é o limite diante do qual até a história precisa parar.
A placa anuncia a próxima cidade.
Mais alguns quilômetros.
A estrada continua.
Crowley queria conhecer o abismo.
O maior perigo não reside em olhar para ele, mas em acreditar que o abismo olha de volta.
Quando o homem encara a escuridão por tempo suficiente, começa a enxergar formas, deuses, demônios, destinos, perguntas com e sem respostas. Por vezes enxerga apenas a própria imagem.
O destino de Aleister Crowley é incerto, assim como o meu e o seu.
O homem que passou a vida procurando forças sobrenaturais acabou criando uma das maiores lendas humanas sobre si mesmo.
Acabou sobrevivendo à própria morte.
No horizonte começa a nascer uma faixa azul.
A noite está acabando, a vontade faz o dia nascer.
Desligo o rádio.
Por alguns segundos, a cabine fica completamente silenciosa. Preciso de tempo e silêncio para refletir sobre tudo isso e escrever essas linhas.
E penso na frase que atravessou mais de um século:
Faze o que tu queres.
Será que a liberdade é realmente isso? Pode ser que a liberdade não seja fazer tudo aquilo que queremos, mas ter coragem suficiente para descobrir por que queremos aquilo que queremos.
A estrada continua diante de mim.
E, em algum lugar atrás dos olhos, ainda escuto Ozzy.
Mr. Crowley…
Mas agora a pergunta parece diferente.
Não é mais:
“O que estava passando na cabeça dele?”
É:
“O que está passando na minha?”
Todo homem que procura a própria liberdade acaba, cedo ou tarde, chegando diante de uma porta.
Do outro lado está o desconhecido.
A maçaneta está na mão. A fechadura está destrancada. Ninguém pode abri-la por você.
Eu acelero.
O céu começa a clarear.
E deixo Crowley para trás.
Ou pelo menos é isso que gosto de pensar.
Algumas histórias não ficam atrás.
Elas viajam conosco para sempre.
Como fantasmas no banco de trás.
E, quando a noite volta,
elas sussurram novamente:
abra a porta.
Mas antes leia o aviso:
INTO THE DARKNESS…
FIM
Uma crônica de Márcio Rahal Costa, inspirada na história de Edward Alexander Crowley - e na canção Mr. Crowley, de Ozzy Osbourne (1980).