Um homem passou a vida inteira tentando descobrir quem havia lhe roubado a liberdade.
Quando era jovem, acreditava que o culpado estava lá fora. Pode ser que os responsáveis fossem os homens que lhe ensinaram como deveria viver. Talvez fossem aqueles que lhe disseram o que deveria desejar. Ou até que fosse o mundo, essa velha máquina implacável de fabricar regras para pessoas que nasceram sem pedir licença.
Ele aprendeu desde muito cedo a obedecer.
E, como quase todo mundo, confundiu obediência e submissão com virtude.
Disseram-lhe que existiam caminhos certos e errados pré-estabelecidos, que algumas portas não deveriam ser abertas jamais e que certos sonhos eram grandes demais para homens como ele. Então ele baixou a cabeça e seguiu adiante, conforme lhe disseram.
Só que ninguém lhe contou uma coisa:
as correntes mais eficientes são aquelas que aprendemos a chamar de destino.
Ele cresceu, trabalhou muito mais do que imaginava, amou mais profundamente que seu coração poderia suportar, e perdeu. Perdeu a tudo e a todos. Perdeu a si mesmo.
E, em algum ponto entre aquilo que esperavam dele e aquilo que ele realmente queria ser, alguma coisa definitivamente morreu.
Não houve funeral, ou sequer testemunhas.
Apenas aquele silêncio estranho que começa quando um homem percebe que passou anos vivendo uma vida que não reconhece mais como sua.
Foi então que nasceu o primeiro dos imperdoáveis.
Não era um monstro, era apenas um homem ressentido, machucado pelos golpes que durante anos o mundo lhe aplicara.
A forma mais perigosa que o ressentimento pode assumir é quando ele ainda consegue parecer razoável, aceitável, tolerável.
Depois veio o amor.
E ele descobriu que carregar uma ferida durante muitos anos não a transforma em cicatriz.
Às vezes, apenas a torna mais profunda e dolorida.
Ele encontrou alguém que o olhou sem exigir que ele fosse outra pessoa. Alguém que, por alguns instantes, pareceu enxergar por trás da armadura, por trás do silêncio, por trás daquela velha coleção de culpas que ele carregava como quem carrega pesadas correntes de aço.
Mas havia um problema, sempre havia. Ele queria ser amado sem precisar abandonar aquilo que o machucava. Apegara-se ao sofrimento como se fosse parte essencial do seu eu.
Queria intimidade sem vulnerabilidade, compreensão sem confessar suas fraquezas, que alguém conhecesse suas cicatrizes, mas não ousasse tocar nelas.
E assim o homem começou a transformar o amor em tribunal.
Cada palavra podia ser uma acusação e cada silêncio, uma sentença.
Cada partida, uma confirmação de que ele tinha razão desde o princípio: ninguém ficava.
Nunca percebera que estava ensinando as pessoas a abandoná-lo, a deixá-lo no estado que ele batizou de paz.
Há homens que levantam muros para impedir que o mundo entre, e depois passam o resto da vida perguntando por que estão sozinhos.
Ele era um deles, na verdade, era a encarnação do exemplo.
E quanto mais amava, mais medo tinha de perder.
Quanto mais medo tinha de perder, mais apertava.
Quanto mais apertava, mais sufocava.
Até que aquilo que deveria ser abrigo tornou-se mais uma cela.
Foi então que o segundo dos imperdoáveis nasceu.
O primeiro culpava o mundo.
O segundo começava a perceber que havia alguma coisa errada dentro dele.
Mas perceber não é o mesmo que aceitar, está muito longe disso.
E aceitar seria ainda mais difícil.
Para isso, ele teria de abandonar a história que contara a si mesmo durante toda a vida.
A história de que era apenas uma vítima.
Os anos passaram, e o homem envelheceu.
Não necessariamente no rosto.
Há pessoas que envelhecem primeiro na alma.
Ele carregava agora uma coleção de nomes, lugares, amores perdidos, palavras não ditas e decisões que gostaria de ter tomado de outra maneira. Era um fardo pesado demais, mesmo para um durão.
Durante muito tempo, procurou culpados.
E encontrou muitos.
Pais, professores, amantes, amigos, o mundo, o destino.
Até que um dia ficou sozinho diante do único adversário que não podia abandonar, processar ou transformar em vilão.
A si mesmo.
E foi uma descoberta terrível.
É fácil odiar quem nos feriu, apontar o dedo para quem nos aprisionou e dizer:
“Fizeram isso comigo.”
Muito mais difícil é olhar para trás e perguntar:
“E o que eu fiz com aquilo que fizeram comigo?”
Ele percebeu, tarde demais, que algumas das suas correntes haviam sido colocadas por outras mãos.
Mas a maioria ele próprio havia apertado.
Algumas portas realmente lhe foram fechadas.
Outras permaneceram abertas durante anos, enquanto ele procurava a chave no bolso dos outros.
E essa foi a pior das verdades.
Ele não havia sido completamente culpado.
Mas estava longe de ser completamente inocente.
Foi então que compreendeu o significado de ser imperdoável.
Não era ser um homem sem perdão.
Era ser um homem incapaz de concedê-lo.
Nem ao mundo.
Nem aos outros.
Nem a si mesmo.
O verdadeiro cárcere nunca aquilo que fizeram com ele, mas a necessidade de continuar cobrando uma dívida que ninguém mais se lembrava de ter contraído.
E naquela noite, pela primeira vez em muitos anos, ele não procurou um culpado.
Apenas ficou em silêncio diante do espelho.
Olhando para o homem que há muito havia sido uma criança feliz.
O homem que quis ser livre, que teve medo, que amou mal, que perdeu, que feriu.
Aquele que passou décadas esperando que alguém lhe dissesse que não tinha sido sua culpa.
E então entendeu que não precisava de absolvição.
Precisava de coragem.
Perdoar a si mesmo não significava declarar inocente o homem que havia sido.
Significava apenas decidir que ele não precisaria continuar sendo aquele homem. Que a página pode ser virada.
Percebeu que a última liberdade que um ser humano pode conquistar é não apagar o passado, mas deixar de obedecê-lo.
Ele finalmente soltou as correntes sem que ninguém tivesse vindo o libertar
Pela primeira vez, percebeu que algumas delas já estavam abertas.
E o homem que passou a vida inteira perguntando quem havia roubado sua liberdade descobriu, tarde demais, que a porta nunca esteve trancada.
Só faltava coragem para atravessá-la.
Como pode um homem que não tem para onde ir estar perdido?
E assim morreu o último dos imperdoáveis.
Não como um homem perdoado pelo mundo.
Mas como um homem que, finalmente,
aprendeu a se perdoar.
FIM
Uma crônica de Márcio Rahal Costa, inspirada na trilogia The Unforgiven do Metallica.